Filme Indígena ‘Che Ypykue – Meu Ancestral’ Exalta Ancestralidade e Identidade em Dourados

Filme Indígena ‘Che Ypykue – Meu Ancestral’ Exalta Ancestralidade e Identidade em Dourados

Dourados se torna o cenário das gravações do curta-metragem intitulado ‘Che Ypykue – Meu Ancestral’, realizado na Reserva Indígena, que abordará questões como ancestralidade e a valorização da identidade indígena. A produção integra as iniciativas do Fundo Municipal de Investimentos à Produção Artística e Cultural (FIP) e destaca a presença da atriz e modelo indígena Dandara Queiroz, de 29 anos, que esteve na maior cidade do interior de Mato Grosso do Sul e, nesta segunda-feira (03), respondeu às perguntas da imprensa, ressaltando a relevância de evidenciar as raízes sul-mato-grossenses em suas obras e de ampliar a representatividade indígena nas artes.

Entre os 11 projetos contemplados pelo FIP, o curta se destaca como a única iniciativa dedicada diretamente à tradição indígena, conforme destacou a secretária municipal Gisela Mello. Para ela, o projeto é fundamental para evidenciar a cultura e a ancestralidade dos povos originários e representa um marco significativo para o panorama cultural de Dourados. ‘É muito importante que esse projeto contemple a tradição indígena e mostre mais sobre nossa cultura, incluindo a discussão acerca da ancestralidade’, afirma Gisela. ‘A participação de uma artista global no FIP traz grandes expectativas sobre o resultado final do trabalho.’

A presença de Dandara Queiroz no curta aproxima a produção de uma trajetória focada na busca por representatividade. Nascida em Araçatuba-SP, mas criada desde a infância em Mato Grosso do Sul, a artista compartilhara que suas características e sua origem indígena, inicialmente percebidas como desafios em certos ambientes, acabaram por se transformar em elementos cruciais para sua trajetória profissional. Após ingressar na moda, a representatividade indígena ganhou destaque em sua caminhada. Em um período de apenas um ano, Dandara chegou à capa da Vogue e, posteriormente, conquistou o título de Miss Mato Grosso do Sul, representando o estado em um concurso nacional em 2020. A artista também teve oportunidades na televisão e na cena internacional da moda.

‘Ser daqui, ter uma aparência que reflita essa identidade, foi fundamental para alcançar tudo o que consegui até agora’, diz Dandara. Para ela, ocupar espaços e fortalecer a presença indígena nas artes é, também, uma forma de criar referências para outros indivíduos que, como ela, podem ter enfrentado incertezas ou falta de oportunidades. A atriz relembra os desafios que teve que superar ao longo de sua vida e menciona momentos de dúvida, mas encontrou na própria cultura uma fonte de motivação. ‘Foi a cultura que me possibilitou ocupar esses espaços’, enfatiza. ‘A resistência é algo que está presente nas nossas realidades; o indígena deve ter, de fato, uma grande dose de resistência’, destaca.

No curta, essa conexão com a ancestralidade se reflete na construção da personagem interpretada por Dandara. A produção se propõe a criar uma experiência sensorial, centralizada principalmente no som, acompanhando o sonho de uma mulher indígena em sua jornada de reconexão com suas origens. A narrativa explora elementos como vento, fogo, floresta e vozes ancestrais, culminando em uma Casa de Reza Guarani-Kaiowá. Para Dandara, interpretar a personagem foi, também, um exercício de aprofundamento em sua própria história. ‘Espero que minha personagem transmita autenticidade. Durante as gravações, sempre busquei trazer verdade consigo em todos os momentos’, compartilha.

A atriz ressalta que o contato com a ancestralidade desempenhou um papel essencial no reconhecimento de suas potencialidades. ‘Eu não sabia que era artista até que conheci minhas origens. A cultura indígena me revelou que eu sabia cantar, atuar, e que meus traços eram bonitos e valorizados no universo da moda global’, narra. Para Dandara, produções como o curta podem criar sentimentos, curiosidade e reflexão, contribuindo para um país mais plural. ‘A arte provoca emoções, curiosidade, desperta a consciência. Quando conseguimos transformar tudo isso em algo que toca as pessoas, o sentimento é de estarmos realizando algo significativo’, afirma.

Dandara também celebrou sua participação na produção em Dourados. Segundo ela, cada retorno a Mato Grosso do Sul proporciona uma sensação de pertencimento e renovação, especialmente pelo contato com aqueles que trabalham na valorização da cultura e da arte. ‘Cada vez que venho aqui, sinto minha alma preenchida. Volto extremamente feliz e reenergizada. Relembro quem sou e qual é o meu espaço’, diz.

De acordo com o produtor artístico Luan Iturve, o trabalho vem sendo desenvolvido há vários meses com a preocupação de preservar a originalidade da proposta e fortalecer a conexão com o território e com a ancestralidade. A expectativa é que o curta-metragem seja finalizado em 2026. ‘A perspectiva é que o curta seja finalizado até 2026. Há meses o trabalho vem sendo realizado para garantir a originalidade da produção, trazendo a essência do ancestralidade e a conexão de alguém que vem de fora para aprender sobre o território. Não é apenas uma ficção, mas uma verdade que está presente no filme’, esclarece.

A proposta de ‘Che Ypykue – Meu Ancestral’ visa utilizar o audiovisual como uma ferramenta para valorizar a escuta, a memória, o pertencimento e a espiritualidade indígena, expandindo também o espaço para realizadores indígenas no cinema contemporâneo. A produção busca apresentar uma perspectiva baseada na cultura Guarani-Kaiowá, utilizando som e silêncio como elementos centrais da narrativa.