Coca-Cola é investigada por usar indígenas de MS para melhorar imagem ambiental

Coca-Cola é investigada por usar indígenas de MS para melhorar imagem ambiental

O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul instaurou um procedimento para acompanhar o processo de certificação internacional da fábrica da Coca Cola FEMSA Brasil, localizada em Campo Grande, após denúncia de uso da imagem e da identidade cultural de indígenas das etnias Kinikinau e Terena para reforçar a imagem de diversidade da empresa e elevar sua pontuação para obtenção de selo ambiental.

A apuração foi formalizada por meio de portaria assinada pelo procurador da República Luiz Eduardo Camargo Outeiro Hernandes, no mês de janeiro, a partir de denúncia registrada no próprio Ministério Público Federal. A suspeita é de que a empresa tenha se beneficiado da participação de indígenas no processo de certificação AWS, um selo internacional voluntário voltado à gestão do uso da água, que exige diálogo com comunidades localizadas no entorno das unidades industriais.

De acordo com a denúncia, representantes das comunidades Kinikinau e Terena teriam participado de reuniões relacionadas à certificação da unidade de Campo Grande, o que levantou questionamentos sobre possível uso indevido da imagem ou da identidade cultural desses povos como parte da estratégia da empresa para obtenção do certificado.

Antes da abertura do procedimento, o Ministério Público Federal solicitou informações à Coca Cola FEMSA Brasil e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas em Campo Grande. O órgão buscou esclarecimentos sobre os motivos do convite aos indígenas, a dinâmica das reuniões mencionadas e se houve autorização para utilização de imagens ou referências culturais.

Em resposta, a Coca Cola FEMSA Brasil informou que segue padrões internacionais de certificação que preveem diálogo com diversos segmentos da sociedade, incluindo comunidades próximas às fábricas. A empresa afirmou que, em agosto de 2025, dois líderes indígenas das etnias Kinikinau e Terena participaram de uma reunião com esse objetivo. Segundo a companhia, o encontro teve como finalidade apresentar as atividades da unidade, os impactos ambientais, o plano de uso da água e os critérios exigidos para a certificação.

Mesmo após as explicações apresentadas, o Ministério Público Federal decidiu manter o procedimento em andamento para acompanhar de forma mais detalhada o processo de certificação. A empresa terá o prazo de dez dias úteis para informar em que fase se encontra a certificação AWS e deverá apresentar documentos sobre eventuais outros contatos realizados com comunidades indígenas.

Também foi solicitado o relatório completo da auditoria presencial realizada na fábrica em 2025, além de toda a documentação utilizada no processo de tentativa de obtenção do selo internacional. O procedimento terá duração inicial de um ano e tem como objetivo verificar se houve ou não uso indevido da imagem e da identidade cultural dos povos Kinikinau e Terena.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Mato Grosso do Sul possui cerca de 116 mil indígenas. A etnia Terena é a mais numerosa no Estado, com aproximadamente 42 mil pessoas. Já os Kinikinau somam cerca de 600 habitantes, que vivem em áreas cedidas por comunidades terena e kadiwéu, nos municípios de Porto Murtinho, Miranda e Nioaque.