Pesquisa inédita de cientista brasileira mostra que primatas podem ter imaginação
Brincar de faz de conta é um marco importante no desenvolvimento infantil e costuma surgir por volta dos dois anos de idade, quando a criança passa a transformar objetos comuns em elementos de um mundo imaginário. Durante muito tempo, esse tipo de imaginação foi considerado uma característica exclusiva dos humanos. No entanto, um novo estudo indica que macacos também podem apresentar esse tipo de habilidade cognitiva.
A pesquisa foi conduzida pela bióloga brasileira Amália Bastos, da Universidade de St. Andrews, em parceria com cientistas da Universidade Johns Hopkins. O trabalho foi publicado nesta semana na revista Science, uma das mais respeitadas da área científica. O objetivo era responder a uma questão central da psicologia comparativa: primatas não humanos seriam capazes de fingir que algo é real, mesmo sabendo que não é.
Para testar essa hipótese, os pesquisadores adaptaram experimentos clássicos aplicados em crianças e os utilizaram com Kanzi, um bonobo criado em cativeiro e conhecido por suas habilidades de comunicação com humanos. Ao longo da vida, Kanzi aprendeu a usar símbolos gráficos para se expressar, combinando sinais e criando novos significados, um comportamento raro mesmo entre grandes primatas.
Um dos experimentos mais representativos foi chamado de festa do suco. Diante de Kanzi, os pesquisadores fingiam colocar suco de uma jarra em dois copos e, depois, simulavam esvaziar apenas um deles. Quando o bonobo era questionado sobre qual copo escolheria, ele optava, na maioria das vezes, pelo copo que supostamente ainda continha o suco imaginário. Em um segundo momento, o teste foi repetido com suco de verdade e, nesse caso, Kanzi escolheu com maior frequência o copo que realmente continha líquido. Para os cientistas, os resultados indicam que o animal conseguia distinguir entre situações reais e encenadas, demonstrando compreensão do faz de conta.
Experimentos semelhantes também foram realizados com uvas artificiais colocadas em potes. Mesmo quando não havia nada dentro, Kanzi tendia a escolher o recipiente no qual os pesquisadores fingiam colocar a fruta, reforçando a interpretação de que ele compreendia a lógica da encenação.
Apesar dos resultados considerados promissores, os próprios autores reconhecem limitações. Kanzi foi criado em contato intenso com humanos, o que levanta dúvidas sobre se esse tipo de habilidade estaria presente em outros bonobos criados em ambientes naturais. O animal morreu no ano passado, aos 44 anos, poucos meses após a conclusão da pesquisa, mas seu papel para o avanço dos estudos sobre cognição animal é considerado relevante.
A interpretação do estudo não é consenso entre especialistas. O psicólogo comparativo Michael Tomasello, da Universidade Duke, que não participou da pesquisa, avalia que ainda existe uma diferença importante entre reagir adequadamente a uma encenação e realmente sustentar uma situação imaginária por iniciativa própria. Para ele, evidências mais fortes surgiriam se o próprio animal passasse a iniciar comportamentos de faz de conta espontaneamente, como fingir despejar água em um recipiente sem estímulo humano.




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